O Conto do Pássaro com Asas de Vento
Uma breve Introdução…
Como há algum tempo escrevi, o mundo é
como um grande mecanismo de relógio, já antigo e frágil. Somos as suas peças, peças
distintas e raras, que muito dificilmente são substituíveis, porque afinal
somos únicos e por isso, quando há avarias, quando um de nós abandona o seu
lugar, a solução que temos é unirmo-nos ainda mais e aguardar por outra mão,
por outro irmão! Temos de preservar o nosso mundo, mas antes temos de saber
cuidar um dos outros.
No passado, caminhamos sobre a forma de
reflexos! No presente, somos uns poetas loucos que gostam de imaginar,
inventar, sonhar seja o que for e à medida que avançamos o futuro vai sendo
construído, os filmes vão passando, as histórias vão sendo escritas, as pessoas
vão envelhecendo e as flores vão florindo ou murchando, consoante o tempo.
Até que um dia, após o último suspiro,
tornamos a ser um “passado” e passamos a fazer parte da memória de alguém. O
futuro nunca está nas nossas mãos de forma inteira. Vai sendo partilhado e
agora vive nos sonhos das crianças, que se perguntam “O que virá? Quem virá?
Quem serei eu? Como será o dia de amanhã?”.
Só nos resta trabalhar para que o futuro
partilhado seja o mais bondoso e honesto possível, porque de mentiras já está o
mundo cheio!
Um, dois, três, quatro, cinco e a pequena
pedra afundou-se no rio de águas límpidas. Nunca a tinha conseguido lançar tão
longe! Os domingos deixavam-me sempre aborrecido e por isso, após o almoço
entretinha-me a atirar pedritas para um grande rio, que se situava perto da
casa dos meus avós. Estava um dia quente e a sede era muita: formei uma concha
com as mãos e bebi uma golada de água cristalina do rio! Mais refrescado, voltei
para casa com toda a calma.
Eu julgo que consigo voar,
principalmente quando começo a correr! Há pouco tempo, comecei a cumprir um certo
ritual e até hoje ainda não falhei um dia. Em cada domingo, seja ao início como
ao fim da tarde, abro o portão que me leva ao longo jardim dos meus avós e
corro até ficar cansado. Grito para que o mundo me ouça, para que as árvores
estremeçam, para que a minha força se solte. Grito sobretudo para que o vento
possa levar a minha fúria para longe e para ver os pássaros a sair dos seus
esconderijos!! No momento em que começam a fugir por entre as folhas e os ramos
das árvores, atiro-me para a relva e deixo-me ficar a contemplar o céu repleto
de figuras turvas e negras, muito inquietantes, que se movem de um lado para o
outro. Adoro observar as voltas, as curvas e os contornos que os pássaros dão!!
Às vezes, penso neles como se fossem lápis de carvão. Temos de estar sempre muito
atentos para realmente entender as palavras que formam, as mensagens que nos
transmitem de lá de cima. Só fico um pouco atrapalhado, quando as nuvens se
colocam à frente. Distraem-me e perco-me por completo! São como borrachas.
É engraçado, porque para os pássaros sou
um simples humano, para os aviões sou uma formiga, para os insetos que andam
por entre as ervinhas sou um gigante e para as outras pessoas sou um menino de treze anos, calado, tranquilo e de poucos amigos. A verdade é que gosto de passar
tempo comigo! Adoro arrumar as minhas emoções em gavetas, mas quando sinto medo
ao tentar entendê-las, costumo trancá-las no meu cofre! Sei que não devia, mas
ainda estou a tentar compreender como funciona o mecanismo deste mundo. Afinal,
como os adultos dizem, a vida é difícil e eu sou apenas um menino. O que sei
eu, não é verdade?
Passei a tarde toda a brincar com a Mãe
Natureza! Corri, saltei, fingi que era uma árvore, encontrei muitas joaninhas,
lanchei pãezinhos de queijo e tentei adivinhar as formas das nuvens. O Jardim
dos meus avós era um porto de abrigo, era sem dúvida o meu lugar favorito em
toda a Aldeia. Só lamentava o facto de haver certas zonas do Jardim a secar!
Olhei de relance para o Sol e percebi
que, tal como eu, já não se aguentava por muito mais tempo em “pé”! Estávamos
ambos cansados e a grande estrela começava a escorregar do céu, assim como, a
manteiga derretida escorre para o interior das torradas, que a absorvem
rapidamente. O Sol estava prestes a adormecer, aquele pó dourado típico dos
finais de tarde começava lentamente a desvanecer-se e amanhã seria outro dia.
Lá ia eu…para mais uma semana de escola. Só desejava que o Senhor Vento me
levasse para longe. Adoraria viajar, ser um explorador e ter a oportunidade de
ver mais do mundo. Como seria bom! Custava-me sempre imaginar algo, que muito
dificilmente não conseguiria alcançar.
- O que se passa, menino Henrique?
Virei-me rapidamente.
- Quem está aí? – perguntei.
- Aqui em cima! Na Cerejeira.
Olhei boquiaberto para o pequeno Pássaro
preto com uma leve tonalidade cinza nas asas.
- Antes que comeces a disparatar…sim, estou
a falar contigo! Eu sei que os pássaros não costumam dominar o alfabeto humano,
quanto mais formar frases. Mas, eu sou diferente!
- Então…como é que…
Não sabia o que dizer.
- Aqui vai um palpite, suponho que tudo
isto seja uma invenção da tua mente, por te sentires um pouco só. Mas, nunca se
sabe, quem te diz a ti que afinal sou real? De qualquer das formas, estou aqui
para te fazer companhia. Não interessa de onde vim, nem para onde vou! Não
interessa que nome tenho, apenas a história que carrego no meu coração! Vamos apenas
conversar um pouco, antes que escureça, pode ser?
Não
devia confiar neste Pássaro falante, que me parecia ser demasiado perspicaz para
o meu gosto. Mas, enfim…
- Está bem! Sobre o que queres
conversar?
Decidi apanhar algumas cerejas e
sentei-me ao pé da árvore.
- Mas, antes…queres comer? – perguntei
de boca cheia.
- Não, obrigado! Já comi as da outra
árvore.
- O quê? Todas as cerejas?
- Por favor, promete-me que não dizes aos
teus avós. – pediu o Pássaro a rir.
- Não te preocupes, porque algo me diz
que vou ser culpado à mesma. – disse eu.
- Estás mesmo tramado, então!
- Pois! – respondi pensativo.
- Eu prefiro ver as Cerejeiras em flor.
Ficam muito bonitas.
- Tens razão. – concordei.
O Pássaro desceu do seu ramo e pousou no
meu joelho.
- Vou contar-te uma história, rapaz!
Serei breve, até porque daqui a nada irão chamar-te para jantar, certo?
Acenei com a cabeça, engoli a última
cereja e foquei toda a minha atenção na sua voz.
- Fui o último dos meus irmãos a
abandonar o ninho! A ideia de me atirar do cimo de uma árvore assustava-me
muito. Não tinha medo de alturas, receava apenas o simples facto de correr o
risco de ser humilhado, caso não conseguisse levantar voo! A minha mãe nunca me
deu grande pressão, mas os meus irmãos gostavam de me provocar. Via-os a dar grandes
voltas, via-os a voar com outros pássaros, com os seus amigos…enfim, já faziam
parte de um bando. Um dia, tive mesmo de ir em frente e no momento em que
tentei superar o meu medo, senti-me a congelar por não conseguir bater as asas.
Pareciam presas…até que o Vento me agarra!
- Como assim?
- Não me interrompas, rapaz!
- Desculpa. – respondi.
- Fiquei suspenso no ar e o Vento foi-me
pousando lentamente. Os pássaros que me observavam chilreavam com toda a força,
porque não entendiam o que se estava a passar. Os meus irmãos foram-se embora
rapidamente e num abrir e fechar de olhos estava sem ninguém à minha volta!
Naquele momento só me perguntava como é que voltaria para o meu ninho. Bem
tentei bater as asas, mas nada feito! Entrei em pânico e o medo de ser atacado
por alguém tomou conta de mim, porque era apenas um pequeno pássaro. Estava
prestes a fechar os olhos, até que ouço uma voz!
- O que é que te disse? – perguntei eu
ansioso ao Pássaro.
- Para me levantar! E assim que fiquei
de pé, comecei a subir lentamente com o apoio do Vento, que me colocou no ninho.
Ficámos a conversar e antes de eu adormecer, disse-me que não precisaria mais
de tentar voar, porque com a sua ajuda iria a todos os cantos do mundo sem
precisar de bater as asas! O tempo foi passando e eu e o Vento tornámo-nos
grandes amigos! Viajámos por tantos lugares, que nem imaginas rapaz. Um dia,
por ironia ou não do destino, chegámos à tua Aldeia e foi neste preciso jardim
que aprendi finalmente a voar.
- Incrível… - respondi.
- É verdade. Tornei-me livre, tornei-me
capaz! Fiz amigos, tive o meu próprio bando e tinha o Vento, que me fazia
sentir o Pássaro mais seguro de todo o planeta. Houve um dia, em que me
apercebi de que sentia algo mais forte por ele. Sentia um grande amor!
- Tu…apaixonaste-te pelo…
- Sim! – respondeu o Pássaro. – O Vento
deu-me asas quando não as soube usar. E mesmo agora, que sei voar…não se foi
embora, porque quando for um velho, já não me conseguirei levantar. E depois,
Henrique? Quem me levará a ver o resto do mundo?
As minhas mãos estavam a tremer e pela
primeira vez senti dificuldade a conter as lágrimas! Mas o que se passa? Por
que quero chorar?
- Vejam só, está a começar a chover!
Este tempo anda muito estranho. Então mas, hoje não esteve um dia de sol com
muito calor? – perguntou o Pássaro à Natureza. – De qualquer das maneiras, é
importante que chova, porque estes dias têm sido muito quentes! Receio que um
dia, tudo irá secar e quando o teu adorado Jardim desaparecer…saberás para onde
ir? Saberás o que fazer?
- Agora sei! Obrigado. – respondi entre
soluços.
- Não chores, rapaz! Levanta-te, vai
ficar tudo bem. Lembra-te de que nada é certo. Tudo muda. A pessoa que admiras
hoje, poderá deixar de te inspirar amanhã. E não há mal nisso! Estima quem te
faz sentir bem…e é só isso que precisas de saber.
Aliviado ao ouvir aquelas palavras, escondi
o rosto com as mãos e deixei-me ficar à chuva.
- O que estás a fazer aí sentado,
Henrique? O que aconteceu à Cerejeira? Comeste as cerejas todas? – perguntou o
meu avô.
- Eu...estava apenas…o pássaro…
- Deixa lá! Vem já para dentro. Vais-te
constipar! – ordenou.
Segui o meu avô e assim que entrei em
casa, o calor da lareira envolveu-me com arrepios.
- Tens de tomar banho. – disse a minha
avó. – Sê rápido, porque daqui a nada sirvo o jantar.
- Está bem!
O silêncio à mesa era sagrado! Os meus
avós deixavam sempre um grande espaço de tempo entre o que diziam. Pronunciavam
frases curtas e não davam grande forma às palavras.
- Preparaste tudo para amanhã? Fizeste
os trabalhos todos?! – perguntou o meu avô.
- Fiz sim! Está tudo pronto.
- Ainda bem.
Despedi-me dos meus avós, dirige-me para
o quarto e, mal pousei a cabeça na almofada, adormeci em três tempos. Acordei com
dúvidas se seria domingo ou segunda-feira e foi com grande tristeza que ouvi a
minha avó a dizer que era dia de escola. Vesti-me rapidamente, desci as
escadas, tomei o pequeno-almoço e segui o meu caminho. Tinha chegado a tempo,
os meus colegas ainda estavam todos cá fora! Antes de nos mandarem entrar, fui
ter com o meu melhor amigo, o Tiago, que se divertia a jogar com berlindes.
- Henrique?
Queres jogar connosco?
- Na
verdade…precisava de te fazer uma pergunta!
- Está
bem. O que se passa? Estás a chorar? – perguntou admirado.
- Não!
Claro que não. Bem…a cor do Jardim dos meus avós tem vindo a desaparecer. Está
a secar, por causa deste tempo e por isso, queria perguntar-te se me poderias
emprestar um pouco do verde do teu olhar, que me parece ser infinito?!
O Tiago revelava
uma expressão confusa no rosto, que rapidamente desapareceu, acabando por esboçar
um sorriso.
- Claro! Mas,
mesmo que o verde do meu olhar tivesse um fim, eu dava a minha cor até ficar
cego. Os teus olhos também precisam de ser “pintados” com urgência. Há imenso
tempo que não têm expressão.
Sorri, como nunca tinha sorrido.
- Não podes ficar sem ver, mas se algum
dia isso acontecer eu guio-te. Não te preocupes. – disse eu.
- Eu sei. Aconteça o que acontecer,
estaremos aqui um para o outro! O amor é como o Vento, Henrique. Não se consegue agarrá-lo por completo de tão poderoso que é, mas somos capazes de o sentir nas faces do rosto. Somos capazes de vivê-lo. E já agora...estás a corar.
Comecei a rir, para tentar
esconder a vergonha.
- Tu também. E é verdade! Sei
que ainda temos muito que crescer e aprender...mas, na minha completa
inocência...eu sei que o que sinto por ti, é amor.
- Sinto o mesmo. Nem as fortes
rajadas de vento, conseguiriam levar-te do meu coração. O amor está mesmo aqui ao nosso lado. - respondeu o Tiago com
lágrimas nos olhos.
No caminho de volta para casa,
deparei-me com o céu repleto de pássaros. Parei, respirei fundo e comecei a
correr de braços abertos. Muitas das pessoas que me viam passar, chamavam-me de
louco, para os adultos com mais imaginação, parecia um avião de papel, para as
crianças era um autêntico pássaro…e para mim, eu era um daqueles humanos que não precisava de ter asas
verdadeiras para voar. Bastava-me ser eu!
Beatriz Afonso
A convite da ADD Júlio Dinis, escrevi este pequeno conto com o
objetivo de fortalecer o Projeto de inclusão LGBTQ da escola.
Todos os direitos reservados -
com restrições.
Dia 22/04/2019
Este conto está sob proteção da CHIADO EDITORA - LISBOA.
A convite da ADD Júlio Dinis, escrevi este pequeno conto com o
objetivo de fortalecer o Projeto de inclusão LGBTQ da escola.
Todos os direitos reservados -
com restrições.
Dia 22/04/2019
Este conto está sob proteção da CHIADO EDITORA - LISBOA.

Adorei ❤
ResponderEliminar"Tudo muda. A pessoa que admiras hoje, poderá deixar de te inspirar amanhã. E não há mal nisso! Estima quem te faz sentir bem…e é só isso que precisas de saber."
Que grande verdade!
Parabéns Beatriz. Excelente texto!!!
Beijinhos
Muito obrigada!! :-)
EliminarFico feliz por ter gostado do conto.
Muitos beijinhos.
Beatriz Afonso